HITO DE NASHI NO KOI

POR: Leonardo Lugarinho

Este livro possui conteúdo violento/erótico extremo

Crítica

O que define a obra de um autor de mangás? Será a qualidade dos seus roteiros? Será seu estilo de desenho? Talvez a resposta seja nenhuma dessas, mas sim a forma que ele expressa a sua arte.

Hiroaki Samura, apesar de não ser o mais mainstream dos autores, tem um considerável número de seguidores, conquistados atráves do excelente Blade - A lâmina do imortal, que já dura mais de 10 anos nas páginas da Afternoon. O que muita gente não sabe (ou não sabia até algum tempo atrás) é que ele tem um outro lado mais sombrio, que é de desenhar ilustrações eróticas com um fundo de crueldade extrema (apesar que ele comenta isso em alguma nota do autor em Blade). Quando falamos de crueldade leia-se tortura, sadomasoquismo ou só o bom e velho (?) sofrimento.

Hito de nashi no Koi (The love of the Brutes) é um artbook que reune 80 ilustrações monocromáticas criadas entre 1998 e 2004 para a editora Ohta, que publica a revista Manga Erotics F de histórias adultas, nas quais Samura é um colaborador antigo. Além disso, tem dois contos curtos. Sim, é um artbook sobre crueldade e sexo.

Comprei o livro sem saber direito do que se tratava. Sabia que era só de ilustrações eróticas, não tinha nada de Blade e que tinha ALGUM S&M envolvido. Eu fiquei fascinado e horrorizado nas mesmas proporções quando finalmente tive em mãos e consegui folhear.

Vamos começar com a capa, que é o começo e o fim do livro. Se você tirar a capa do livro, você verá uma imensa ilustração. Ele mostra uma imagem bem feliz de um grupo de jovens garotas, quase perfeito e angelical demais. Mas essa felicidade dura pouco.

Dando uma rápida folheada você percebe do que esse livro se trata. É sobre sofrimento. Sofrimento físico, com torturas, desmembramentos, morte, estupros. E o pior, sofrimento psicológico. Todas as ilustrações internas, sem exceções, tem algum tipo de violência. Outro detalhe é que só mulheres sofrem a ação dessa violência, mesmo que seja praticada por outras mulheres. Além disso, o extremismo gráfico vai dividir rápido quem tem estômago e quem não tem. Esse é o amor dos brutos.

Uma das coisas que você vai reparar rapidamente ao ver esse livro, além dos óbvios “Que bizarro/Que nojo/etc”, é “EU NUNCA TERIA IMAGINADO ALGO ASSIM”. Uma pessoa normal, que tenha suas facilidades mentais em ordem, consegue imaginar algumas formas de violência. Hiroaki Samura vai além. Sua imaginação para inventar formas de tortura e mutilação foi o que, para mim, valeu ter comprado esse livro. Ele consegue criar situações que me deixaram de boca aberta, página por página. Se você acha que viu de tudo, veja a próxima ilustração. Isso cria um clima de tensão qeu pouquissimos livros me deram.

O pior é que nem todas as ilustrações chocam de cara, mas tem um efeito devastador quendo fazem. Algumas ilustrações tem uma faceta singela ilusória, onde você tem que prestar atenção aos detalhes para entender do que se trata. Caso mais clássico: “A garota maquiada” onde vou contar exatamente como eu reagi. “Ah, finalmente uma ilustração normal, uma garota sendo maquiada. É até bonita. Legal. Samura desenha demais mesmo. Deixa eu virar a página….ei, mas peraí. Porque tem um balde debaixo dela? E isso no canto? É uma espada sendo afiada? Mas para que moti….AH. MEU DEUS!!!”. Uma execução. Um toque final antes da morte. O efeito é devastador. Foi nessa ilustração que eu percebi a genialidade doentia do Samura.

A arte do Samura é incomparável. Apesar de serem só ilutrações monocromáticas, e algumas serem até meio sujas, sua beleza é sem igual. Outra coisa é que ele é bom anatomista e sabe fazer expressões faciais como ninguém. Todas as ilustrações são belíssimas, mesmo que seja para um assunto tão extremo. Sobre os designs, as mulherese são repetições de coisas que nós já vimos em Blade, então vemos várias Rin e várias Hyakurins de diversos penteados e detalhes diferentes, já os homens são bem diferentes uns dos outros. Outras coisas podem ser notadas que aparecem também em Blade são o gosto de usar pinturas sobre o corpo feminino (que era o fetiche de um dos itto-ryu no começo de Blade). Algumas ilustrações tendem a serem mais realistas do que as outras.

O acabamento do livro é muito bom, como é comum nas edições japonesas. A capa é o que mais impressiona com um acabamento glossy que realça o tom de cinza da ilustração. De extras, um pôster no meio do livro, mostrando duas mulheres se sodomizando mutuamente. E dois contos curtos, de uma página de história e uma de ilustrações. Há um cometário final escrito pelo samura no final do livro e eu daria tudo para saber traduzir o que está escrito.

Voltando a capa, como encerramento dessa crítica, nunca entendi porque ela se destaca das demais. A garota da capa é a única que não sorri, é verdade, mas ainda não consegui reparar o motivo óbvio dessa tristeza. Talvez não esteje tão evidente e eu nunca descubra, mas sempre voltarei a essa imagem tentando captar algo novo.

Enfim, é extremamente complicado defender algo que é um sentimento negativo do ser humano, mas em nenhum momento eu achei que incentiva ou, pior, banaliza a violência. Pelo contrário, sendo intencional ou não, ele mostra dor das mulheres e quanto os humanos conseguem ser estúpidos, principalmente os homens. Digo isso porque acredito que o tema das obras do Samura sempre são “mulheres que sofrem mas dão a volta por cima, mesmo sendo maltratadas e menosprezadas pelos homens”. Só ler as entrelinhas de blade.

É um excelente livro, sem dúvidas. Para mim, contou a arte e a beleza por trás da roupagem extrema, fora que são ilustrações inéditas. Descobrir um lado obscuro de uma pessoa é sempre interessante. Mesmo assim, será difícil me ver recomendando esse livro para qualquer um, mesmo que seja fã de Blade. Era mais fácil justificar a compra quando só existia esse livro com trabalhos do Samura, mas hoje em dia, com o artbook de Blade sendo lançado.

Essa crítica foi feita com o meu livro do meu lado, mas eu NÃO fiquei folheando ele durante a escrita desse texto. Não tive coragem.

 
criticas/hito_de_nashi_no_koi.txt · Última modificação: 2014/08/01 17:41 (edição externa)
 
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